Sobre a Emilly


Um namorado discutindo com a namorada grita e mete o dedo na cara dela. Na manhã seguinte ele pergunta porque a menina não reagiu. Ela, calmamente, responde "porque tu é o homem que está comigo". Dias depois, o fato se repete. Desta vez, alguém testemunha. O namorado, então, se justifica "está tudo bem, ela que está nervosa porque discordei dela". Isto não aconteceu nos anos 70 ou em uma novela de época, aconteceu ontem em um reality show! Em um programa de televisão do qual este rapaz poderia ser eliminado rapidamente. Sabem o que a nossa sociedade fez? Nada.
Fonte: TV Globo


Como faz nada todo dia.  Coisas deste tipo acontecem absolutamente todos os dias. Com uma naturalidade e frequência absurdas. Você que está lendo isso já viu. Já vi acontecer dentro da minha casa. Já aconteceu comigo. Eu, Palloma Mina, do pedestal dos meus 1,74m de altura fui empurrada na rua por um namorado nervosinho. Tempos depois, me disse que era coisa de vagabunda passar o domingo em casa estudando ao invés de estar do lado dele. Outros tempos depois, sumi da vida dele.

O que eu posso dizer sobre a minha experiência é que a ficha demora muito para cair. Entre o primeiro e o segundo episódio de agressão foram seis meses de intervalo. Eu sabia que tinha algo muito errado acontecendo, mas eu não me enxergava como vítima de violência doméstica. Eu nem era casada, oras.

É muito difícil você entender a velocidade com que as coisas mudam. "Ele passou meses no meu pé, ele diz que me ama, ele me apresentou para a família, ele quer ter um filho comigo, como assim ele me empurrou na rua? Não faz sentido! Aquilo deve ter sido um episódio isolado", era assim que eu pensava. Eu entendo que a Emilly e outras tantas mulheres estejam pensando exatamente a mesma coisa neste segundo. É incoerente demais o cara te cortejar, te cuidar, te assumir e, de repente, te agredir.

É triste admitir que você se enfiou nesta situação, que você não analisou a pessoa direito, que baixou a guarda para alguém que, no mínimo, te enxerga como uma propriedade. E as pessoas fazem o que querem com suas propriedades, é importante lembrar. Eles sacodem, empurram, beliscam, seguram pelas bochechas, tapam a boca, ameaçam com a tampa da panela de pressão, enfiam o dedo na cara, gritam, humilham, intimidam. Quem se importa?
Eu me importo. Sou dessas que passou a última noite em claro pensando como um país inteiro viu uma menina passar pelo o que a Emilly passou e não eliminou este babaca do programa de televisão quando teve a chance. Pior de e mais preocupante de tudo, a produção do programa perguntou para quem é considerada a rainha da autoestima se ela tinha se sentido agredida e ela respondeu que não.

Ela protegeu o Marcos com o silêncio, como eu fiz com o meu namorado. Minha família, muito provavelmente, só vai saber dessa história quando ler estas linhas. Eu pensava "me meti nesta situação sozinha, preciso resolver isso sozinha". Muitas mulheres devem pensar o mesmo. Inclusive, no meu caso, imaginava que as pessoas colocariam a culpa da situação em mim e na minha boca dura.

Como repórter, acompanhei vários casos de violência doméstica, fosse verbal ou física. Já escutei um delegado perguntando para uma mulher se ela realmente não tinha feito nada para merecer a surra que o marido deu nela. Oi? Ela ter queimado o arroz justifica ela tomar uma surra? O fato da Emilly discordar do Marcos justifica ele acuar a menina? Que porcaria de sociedade é essa que não nos preocupamos em proteger a vítima e sim em achar justificativas para a ação agressor?

Quem agride não precisa de motivação, agride porque não conhece respeito e ponto. Isso seria o mesmo que o delegado perguntar para um homem vítima de assalto "o senhor tem certeza que precisava do seu carro? Será que não pode deixá-lo com o ladrão? Já parou para pensar que talvez ele precise do veículo?". Faria algum sentido?
A maioria dos casos de violência doméstica que presenciei não terminou como o meu. Eles foram seguidos da cena em que o casal se ajoelha no chão, agradecendo a Deus por ter blindado o amor deles. Exatamente como Emilly e Marcos fizeram ontem no jardim da casa. Deus. Usam o santo nome de Deus. Imagine quantas mulheres são mantidas em situações como esta sob a "justificativa" de que Deus as está abençoando? A Emilly tem certeza de que a permanência do Marcos no programa é uma bênção para ela.
Fonte: TV Globo.
Soube até de pastores que pediram para uma moça suportar as constantes traições e maus tratos do marido porque é isso que Deus esperava dela, que ela suportasse até que Ele o recuperasse. Dois anos depois, ela ainda é humilhada diariamente. Pessoalmente, não credito que Deus criou a humanidade para que metade dela passe a vida com medo. Deus é muito maravilhoso com todos nós, não só com a metade de nós.

É necessário falar sobre isso e agir para quebrar o ciclo. Isso precisa deixar de ser normal imediatamente. Nós precisamos virar para os agressores e falar "por que você não vai arrumar briga com alguém que você não manipula, seu lixo?". Não é sobre ficar quieto, ficar quieto é proteger o agressor, é colaborar com a manutenção do famosos "em briga de marido e mulher ninguém mete a colher". Temos que comprar a briga e brigar.

Não podemos continuar falando a asneira de que as mulheres estão em situações assim porque querem. Quem, em sã consciência, quer passar por isto? Não ter força para sair da situação é uma coisa, querer a situação é bem outra. Falar que a mulher está assim porque quer é continuar deixando-a sem força.

Precisamos ter o mínimo de empatia com as vítimas e o máximo rigor com quem agride, não o contrário. Por que? Por uma razão bem simples, amiga mulher: amanhã o dedo pode estar na sua cara, como já esteve na cara das suas amigas, da sua irmã, da sua prima e de quem escreveu este texto.


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