#PallomaVaiSecar: sobre gordofobia




Pausa no mundo ideal para falar das mazelas do mundo real. Hoje o tema do post é preconceito e como eu lido com ele. Comentários sobre situaçãoes parecidas e as suas estratégias para lidar com eles serão muito bem-vindos. 

No último sábado, fui à rua José Paulino, grande centro do comércio de vestuário na capital paulista, em busca de um vestido para o casamento de uma amiga. Logo que cheguei, entrei numa loja, provei um vestido G que não fechou por dois dedos. A vendedora comentou que o GG tinha acabado. Algumas quadras depois, vi outra loja com as mesmas peças, entrei. As duas lojas eram dos mesmos donos e contavam com as mesmas mercadorias. Mais que isso, eles tinham o vestido que eu gostei no tamanho GG. Uhul! Só para constar, estas lojas se chamam Mestre Kim e Ângela. 

Na José Paulino, poucas lojas têm provadores. A prática é experimentar as peças por cima da roupa que já estamos vestindo com a ajuda das vendedoras. Quando comecei a me vestir, escutei a dona da loja, uma senhora coreana que estava no balcão, gritando “Não fecha, vai estourar. Tira, tira!”. A vendedora também ouviu, a gente trocou um olhar breve pelo espelho e continuou. O vestido entrou, era a hora de fechar o zíper. A dona da loja voltou a gritar, agora chamando a vendedora pelo nome. “Não é pra fechar! Não cabe, esgarça. Tira, tira!”. A moça até respondeu dizendo que se não fechasse, ela não ia insistir até estourar o zíper. Respirei fundo. Pedi para a moça tirar a peça do meu corpo mesmo sem tentar fechar o zíper. 

Fui obrigada a dar meu show, um número que, infelizmente, já cansei de estrelar. Disse que em alto e bom som que não preciso ser humilhada nem naquela loja e nem em loja nenhuma, que posso comprar onde eu quiser. Depois fui até o balcão, olhei bem na cara na dona a loja e soltei um comentário do qual me arrependi depois. “Por que a senhora não volta pra Coréia? Lá as pessoas são bem magras, mas duvido que o dinheiro deles seja gordo que nem eu. Isso que a senhora acabou de fazer chama-se discriminação!”, também devo ter mandado a mulher enfiar o vestido em algum dos orifícios do corpo. A essa altura, eu já estava louca de raiva, ela estava fazendo de conta que não entendia o meu português e o segurança da loja estava parado atrás de mim. 

Me arrependi do comentário porque sei que sou melhor que a Lei de Talião. Não é porque a mulher praticou gordofobia comigo que eu tinha que ser xenofóbica com ela. O problema é que sou de carne e osso.  É difícil não reagir quando se é agredida gratuitamente e sou de reagir a tudo. Mas sei que existem centenas de milhares de mulheres que teriam abaixado a cabeça e ido embora chorando para casa. Apesar de não ter uma lágrima no meu rosto, fiquei triste, desisti do vestido e fui embora.

No caminho, lembrei porque só compro roupa pela internet há anos. É para me proteger deste tipo de situação ridícula. Por mais que me sinta linda, que curta cada pedacinho de mim, sempre tem alguém para lembrar que eu não posso ser assim tão bonita estando fora dos padrões. Eu nem sei contar para vocês quantas vezes já ouvi de vendedores “aqui não tem nada para você” assim que eu pisei na loja. É como se uma pessoa acima do peso, como eu, fosse contaminar o ambiente ou estragar as peças. Até para comprar presente para as minhas amigas é difícil, tenho que explicar que a roupa não é para mim. Mesmo assim, recebo olhares desconfiados, do tipo “essa gorda vai tentar entrar nesse vestido PP na casa dela...”. 

E não é só isso. Eu já cheguei a chamar a polícia para entrar numa casa de shows que me barrou na entrada junto com algumas amigas também plus size. A gente ia pagar ingresso, como todo mundo, mas disseram que não tínhamos “perfil para o evento”. Quando a viatura chegou, por mágica, nos enquadramos no perfil. Não vou dizer que foi uma escolha agradável, mas deixar que alguém me discriminasse impunemente ia ser um peso nas minhas costas para sempre. Se eu não lutar pela minha dignidade, ninguém vai fazer isso por mim. 

Sempre vejo depoimentos de gays, negros, nordestinos e de outras pessoas que são alvo fácil da intolerância falando das nuances do preconceito, e entendo perfeitamente. Se você é mulher e veste mais que 46, também entende. Vai desde te olharem com desdém até te atacarem de verdade, como essa senhora fez comigo.

Infelizmente, tenho amigos que agem assim. São comentários do tipo “este vestido não está muito justo? Você podia usar peças mais larguinhas, ia ficar tão bonito!”. Ou seja, eu devia esconder as minhas curvas generosas para as pessoas se sentirem mais confortáveis. O fato de eu estar feliz com o meu corpo incomoda muita gente. A felicidade de um casal gay na rua incomoda gente que tem relacionamento hétero de fachada. Uma mulher negra com o black power causa estranheza em gente que faz escova progressiva para esconder os cachos que tem na cabeça. E tem gente que morre de inveja do sucesso dos nordestinos estabelecidos em São Paulo, eles terem trabalhado e vencido na vida incomoda muita gente.

Desculpa, mas ser infeliz para gente recalcada não se sentir agredida pela minha felicidade não é uma possibilidade. Por mais que seja um balde de água fria, que constranja e que entristeça, eu não vou apagar a minha luz. Não vou usar burca. Não vou deixar de ir ao casamento da minha amiga porque essa senhora não quis me vender um vestido. A minha vida vai seguir com as minhas curvas, a minha risada alta e os meus shows, se eles forem necessários. Não vou recuar um milímetro. A cara do preconceito é feia, horrorosa, eu sei. Mas quando ele mostrar as garras para gente, o mínimo que a gente tem que fazer é mostrar os dentes de volta. É perigoso? Talvez o segurança da loja da coreana tivesse me batido? Sim. Mas se a gente for se paralisar por medo, nem levanta da cama, né? Vai que entra uma bala perdida dentro do quarto... 

O que eu posso contar para vocês é que me afeta, me machuca, mas que eu vou encarar de queixo erguido. A minha decisão de emagrecer não teve nada a ver com o preconceito, com os comentários maldosos e os olhares de reprovação. Sempre dei o dedo do meio pra essa gente e é o que eu vou continuar fazendo. Faça o que você quiser do seu corpo, faça por você. Ninguém nunca é bom o suficiente para os preconceituosos. 

Desabafo feito, semana que vem retomamos a saga para a vida saudável, beleza? Até lá, me sigam no Instagram (@pallomamina).


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